Um olhar sobre a cidade em mim

Areia - PB


Texto de Aderaldo Luciano


Areia, quanto de ti carrego comigo. Te arrasto em vários carros-de-bois, gemendo, ladeira acima. Me levas, em carros pipas,  ladeira abaixo, cantarolando minhas alegrias. Te amo e te odeio, te quero e te repugno, te abraço e te esbofeteio: um casamento sem saída, um amancebo sem entradas. Às vezes te imagino toda minha, deitada em minha cama. Outras vezes nem quero ver teu rosto, maldita que és, santa que és, estranha que és, bendita que és, malvada que és. Sonho com tuas pedras sob meus pés, acordo com tuas pedras sobre meus ombros. Para onde irei sem ti? Onde chegarei contigo? Só sei de duas coisas: possuis minhas entranhas e eu detenho teus mais nefastos segredos. Passe tudo nessa vida vã, não passem tuas ruas, nem teu céu. Sei de tuas atrocidades e dos teus afagos. Conheço tuas maldades e teus aconchegos. Vinde a mim, santa barroca. Vai-te de mim, menina má. Dorme comigo, me dá teu colo. Sai daqui, quero tua distância. Um dia, Areia, sentarei em tua praça e passarei tudo a limpo. Vivamos tu e eu, sobreviventes que somos de tantas intempéries e tantos homens maus!

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