A sedentária e a montanha.


por Ana Clara Maia


Sou oficialmente sedentária. Passo cerca de 12 horas por dia na frente do computador. Atualmente, não faço caminhada, não frequento academia. Meu exercício é intelectual, aliás, nessa área trabalho muito.
Pois bem, além do meu trabalho na secretaria de cultura de  Areia, também coordeno o Ponto de Cultura de Pilões. O projeto do Ponto é encontrar os contadores de história, ouvi-los e transformar essas histórias em livros e documentários.
Nisso de ouvir as histórias, uma surgiu muito forte nas entrevistas, que é a da Pedra do Cruzeiro, com todas as lendas que a envolve. A equipe decidiu conhecer a Pedra e eu fui junto, sem imaginar o que significava descer a Pedra.
Durante a reunião de planejamento, Rafael, que conhece a Pedra como conhece sua casa, nos disse que subiríamos de carro até bem perto do alto, onde tem a capela, a casa dos ex-votos e o Pé de Cristo. Segundo a lenda local, essa marca de um pé incrustada na pedra é a marca do pé de Cristo e, a pessoa que conseguir encaixar seu pé na marca estará salva, caso contrário irá para qualquer lugar, após a morte, menos para o céu. Depois de visitar o alto da Pedra desceríamos pela trilha até duas locas que também despertam o imaginário local.
Pois bem, acordamos no domingo bem cedo, passamos pela feira livre para colher alguns depoimentos, subimos no carro e partimos rumo à famosa Pedra. O carro chega até bem perto do alto, no verão. Chegamos à Pedra com 5 minutos de caminhada ladeira à cima. A vista é realmente de tirar o fôlego. Eu visitei a capela, a casa dos ex-votos e fui testar minha ida para o céu. Meu pé encaixou direitinho no pé de Cristo, coisa que me deixou muito feliz pois, ali estava a prova que meus pecados não eram tantos assim. Olhamos a vista, fotografamos tudo e Rafael avisou que estava na hora de começarmos a descida.




Toda satisfeita, sigo junto com o grupo, afinal descer é fácil, difícil é subir uma montanha.
De início realmente foi bem fácil. Seguimos por uma estrada larga, passamos por uma plantação de batatas e chegamos à cacimba que nos forneceu água fresca. Em seguida, enveredamos por uma trilha de mata fechada. Foi aí que a dificuldade começou.






No meio da mata as pedras surgiram. Algumas imensas, majestosas, que tivemos que contornar, outras, pequenas, pontiagudas, escorregadias, que tivemos que escalar. Não levamos cordas e alguns tombos foram inevitáveis. A maioria meus, claro! Antes de chegar na Loca dos Americanos caí duas vezes. A primeira no meio das pedras onde torci o pulso, a segunda em um caminho de folhas secas, que decidi utilizar, para não ter que pular de pedra em pedra. As folhas secas, umas por cima das outras escorregam feito sabão. Quando pensei que, já estava no chão. Alguns xingamentos foram inevitáveis. Quem me conhece sabe. Levantei, recompus minha dignidade e segui em frente, com o apoio da mão de Paulo Roberto. 





Enfim, chegamos na primeira loca, a dos Americanos. Contam os antigos que alguns americanos passaram um bom tempo nessa loca procurando pedras preciosas. Não encontraram nada e foram embora. O lugar é lindo e assustador para alguém como eu, que não está acostumada a lidar com morcegos e maribondos. Os maribondos deram uma surra em Paulo Roberto, nosso cinegrafista, quando ele tentava colher um mamão. Aliás, devo dizer que os americanos não passaram fome por ali, pois o lugar tem muita manga, jaca, laranja, cajú, mamão, fava e muito mais. 






Com Paulo Roberto refeito das picadas, seguimos em direção a Loca do Major. Inocentemente achei que ficava ali por perto. Que nada! Haja caminhada. Sobe pedra, desce pedra, se arranha nos matos, conseguimos chegar em uma fonte de água cristalina, onde Rafael, que parecia mais um cabrito montês pulando de uma pedra para outra durante todo o percurso, escorrega nas pedras molhadas e vai ao chão. Recuperados e refrescados, pegamos novamente a trilha e conseguimos finalmente chegar na Loca do Major. Nesse ponto, minhas pernas já não obedeciam ao comando do meu cérebro e eu só pensava em chegar onde o carro nos esperava. Visitado, fotografado e registrado o esconderijo dos antigos Majores da região, finalmente pegamos a trilha que nos levou direto para o pé da bendita montanha! 


Estou aqui agora, um dia depois dessa maratona, sem conseguir dar um só passo.

Postagens mais visitadas