quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Brejo de Areia

Quando falamos em Areia, geralmente dizemos que ela tem165 anos. Nunca me conformei com isso, pois sempre achei essa informação incompleta. Areia tem 165 anos de emancipação política, isso é fato, mas, Areia tem aproximadamente 311 anos de existência!

No livro “Brejo de Areia” do escritor Horácio de Almeida, está registrado no 1o Capítulo, que ele denomina de “Sertão de Bruxaxá”, logo no início da 1a página, “Não se sabe ao certo quando teve começo a cidade de Areia. Tudo indica, entretanto, que foi do fim do século XVII para princípio do XVIII, podendo-se situar-se o fato ao redor do ano 1700”.
Ora, para mim está muito claro.  De 1700 para 2011 = 311 anos!
De agora em diante, quando me perguntarem quantos anos Areia tem, direi:
- Areia tem 165 anos de emancipação política, e cerca de 311 anos de existência.
Já que estou relendo pela quase centésima vez o livro “Brejo de Areia” de Horácio de Almeida, aproveito para postar aqui parte do capítulo “Aspecto Cultural”, especificamente as páginas 128 a 131, que falam sobre o Teatro Minerva.

Brejo de Areia – Horácio de Almeida, páginas 128 a 131:
“[...] O Teatro de Areia, o mais antigo da Paraíba, inaugurado em 1859, emoldurava o aspecto cultural da cidade, no tocante às artes. Não sonhava a capital da Província de possuir uma casa de espetáculos digna desse nome e já Areia tinha o seu Teatro Recreio Dramático, obra de iniciativa particular, construído sem ajuda do governo, graças ao idealismo de Joaquim da Silva e José Evaristo da Cruz Gouveia, duas personalidades marcantes na segunda metade do século passado. Para realização do empreendimento organizou-se uma sociedade, em 1857, composto de 60 membros, com a contribuição mensal de cinco mil réis cada um. [...].
A sociedade Recreio Dramático, além da construção e administração do teatro, tinha a finalidade de nuclear artistas amadores para as representações locais. Do Recife chegavam a Areia conjuntos teatrais, que deixavam de exibir-se na capital da Província pelo desestímulo do meio. O teatro Santa Rosa, que hoje existe na capital, só foi inaugurado ao apagar das luzes do Império, quando o de Areia já contava 30 anos de existência. Até companhias de opereta, como a de Helena Balsemão, representaram no Recreio Dramático. Dramalhões celebres no repertório da época, como Inês de Castro, Milagres de Santo Antônio, Pedro Cem, Anjo da Meia Noite, A Morgadinha, arrancavam soluços e aplausos da platéia, levados à cena pela gente de casa.
(...)
Já havia um conjunto local, que fazia as delícias do povo e da própria sociedade Recreio Dramático, quando chegou a Areia o famoso cômico Joaquim Peixoto, que vinha exibir-se nos melhores teatros do pais. Peixoto  gostou da cidade, dela se afeiçoou e ali ficou morando pelo resto da vida, desgarrado da companhia de que fizera parte. O artista fez discípulos no elenco que a sociedade dramática congregava, composto dos rapazes da terra, dos quais sobressaiam pela desenvoltura no palco Tristão Grangeiro, Cândido Fabrício, José Inácio Guedes Pereira, José Quirino, Matias da Gama, Casumba, Júlio Silva, Joça Xavier, Firmino Costa, Belino Souto, Horacio Silva e Rodolfo Pires. Outros jovens também se exibiam como galãs, entre os quais estavam os futuros dignatários da igreja. D. Adauto de Miranda Henriques e monsenhor Valfredo Leal.
Naqueles tempos o elemento feminino não tomava parte nas representações. O papel que de direito lhe cabia era executado a perfeição por jovens do sexo oposto, fantasiados de mulher. Rodolfo Pires e João Camelo encarnaram-se muitas vezes em donzelas graciosas, a contracena airosamente com cavalheiros de barba hirsuta. Homens da maior respeitabilidade faziam parte do Recreio Dramático, caracterizados a rigor quando assomavam o proscênio.
Tamanha a pletora do conjunto local, que em 1888, por divergência havida no seio da classe, cindiu-se a sociedade dramática em duas alas. A facção dissidente, encabeçada por Joça Xavier, pai de Otacílio de Albuquerque, saiu à procura de outro palco. De repente, como um milagre de improvisação, nascido do entusiasmo e da vontade inquebrantável daquela gente, novo teatro foi montado em Areia. A improvisada casa de espetáculo instalou-se no pavilhão outrora ocupado pelo descaroçador de algodão de Joaquim da Silva, onde depois se construiu o mercado municipal.
Estava Areia, deste modo, com dois teatros e dois conjuntos amadores, funcionando por despique ao mesmo tempo. O de Joca Xavier, batizado com o nome de 8 de Dezembro, por ter sido inaugurado no dia da festa da Conceição, era também conhecido por Teatro Popular. Animados pela rivalidade, os dois teatros davam espetáculos no mesmo dia, apanhando casas geralmente cheias. Dr. José Evaristo, correndo de um a outro, em cada um deles assistia metade da representação, só para comentar gostosamente no outro dia qual a melhor performance dos artistas em cena. Assim corria a vida em Areia no último decênio do regime imperial, em cujo meio o teatro constituía motivo de vida social e sobretudo de emulação à cultura.
 (...)
Evidentemente, dois teatros não satisfaziam as exigências de uma cidade pretensiosa como Areia. Então Otacílio de Albuquerque, filho de Joca Xavier, já rapazinho, reuniu os adolescentes de sua classe e com eles fundou um teatro para crianças, que funcionou na casa onde foi depois a padaria de Antônio Laurentino, hoje ocupada em parte pelo estabelecimento de Clementino Coelho. [...].
Quando nada havia para representar no teatro, estava em cena o pastoril de José Ataíde, ou era então a banda do Recreio Musical a executar peças de seu repertório. Aos poucos foi arrefecendo o prurido de entusiasmo. Areia esta prestes a refluir do fastígio a uma era de sombras, como o indivíduo que dissipa duma vez toda a sua fortuna. Quando mergulhou na decadência, nem o guarda-roupa do teatro escapou. Entrou a ser desbaratado pelos grupos carnavalescos, que se exibiam como papangus pelas ruas da cidade. 
 Já então, o teatro era uma coisa sem dono, uma casa abandonada, transformada depois em cinema de ínfima categoria. 
 No começo deste século, quando Otacílio era prefeito de Areia, recebeu o Teatro Recreio os últimos benefícios de sua história. Contando o prefeito com a colaboração de Horácio Silva, que regia na época um curso de português e matemática na cidade, dotou o teatro com jardim, varanda, iluminação a acetileno, mobiliário, e outros melhoramentos. Horácio Silva, nessa oportunidade, colocou no frontispício do prédio uma estatueta da deusa Minerva, recuperada do jardim público de Santa Rita, originando-se daí o apelido que vingou e ainda perdura de Teatro Minerva”.