terça-feira, 23 de novembro de 2010

TODOS OS CAMINHOS DO BREJO


  Há vários caminhos que nos levam ao brejo onde fica a cidade de Areia.
            Saindo do mar, são 120 quilômetros, subindo a serra de Alagoa Grande.
Vindo do sertão, depois da grande campina dos tropeiros, viajamos mais um pouco e logo ali, depois da Escola de Agronomia, no antigo engenho da Várzea de José Américo, avistamos a pequena cidade “encalhada nos astros”, beirando os precipícios. Existem os atalhos que cortam mapas e distritos, cruzam engenhos. Esses são sim, os caminhos mais incertos e duvidosos, de modo que quem chega aqui somente por eles, nunca chega de fato.
Há outros caminhos que cortam por dentro a velha cidade, atravessam seus vales sombrios e seus habitantes, os vivos e os mortos, suas lendas e suas noites em ruína.
Certamente alguns hão de preferir o caminho da legendária gameleira, com sua copa que inda nos sombreia, meio século depois da sua derrubada.
Outra estrada pode ser o dos vultos “grandes e gloriosos”, de que nos falou Celso Mariz. Quem segue por esse caminho pode cometer o imperdoável risco da omissão e de se dependurar tanto no passado que este lhe turvará os olhos. Pisada estrada que nos conforta com a ilusão da cartografia exata. Porém, difícil é perder-se quem por eles segue.
Absolutamente maravilhoso é atravessá-la com os olhos claros da sertaneja Carlota Lúcia de Brito e seu ar de tragédia, nas letras suaves de Dona Ezilda.
Há os trajetos musicais, nas partituras de Areia e sua música.
Há quem aqui chegue pelas lentes fotográficas de Machado Bittencourt e pela imagem em movimento no Carnaval sujo de Vânia Perazzo.
À medida que avançamos, os caminhos se bifurcam. Porém, em todos eles, nos espera Soledade e, tomando-nos pela mão, nos ensina o caminho da Bagaceira e de seu criador.
E, como todos os caminhos do brejo nos levam à Bagaceira, estrada bonita é a apontada por Gustavo Moura, chamada de Mel do Sal. Vindo por ele, alguém há de se perder nas sombras para ser resgatado pela luz, no próximo instante. Não é uma travessia arriscada, mas corre-se o risco de sermos traído pela beleza, de modo que o visitante cogite estar diante de um lugar que não existe, num tempo que Moura inventou.
Mas o perigo maior, para quem escolher essas paragens, é o que corre o viajante que chega à cidade invisível de Maurília, descrita por Calvino: ter de preferir e louvar a cidade desses postais, preferindo-a a atual, para não desapontar seus habitantes.
Conhecer o brejo pelo Mel do Sal é aprender a caminhar na sombra, tocando a luz impossível e, principalmente, crer que são possíveis as cidades e os brejos.

Janaína Azevedo – Areia –Inverno de 2009.